Hoje
Branca guardou a Lei escondida. Os cristãos-novos que conseguiram fugir da Península a guardaram às claras, e as comunidades que fundaram ainda rezam, cantam e cozinham o Shabat. Dá para visitar quase todas.
A primeira sinagoga das Américas, na Rua do Bom Jesus, aberta sob o domínio holandês por judeus portugueses, muitos deles cristãos-novos que voltaram ao judaísmo, a poucos quilômetros de onde Branca acendia o candeeiro. Hoje é museu e centro cultural, com o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco.
Sobre a sinagogaQuando os portugueses retomaram o Recife, 23 judeus da cidade chegaram a Nova Amsterdã e fundaram a primeira congregação judaica da América do Norte. Ela ainda reza no rito espanhol e português.
shearithisrael.orgA grande sinagoga portuguesa, ainda iluminada só por velas. “Esnoga” é a mesma palavra que as testemunhas de 1593 usaram para o lugar de reza no engenho de Camaragibe.
Portuguese SynagogueA congregação dos judeus espanhóis e portugueses de Londres, fundada em 1657 por famílias de cristãos-novos. Guarda a liturgia, a música e a pronúncia do hebraico da “Nação”, como no Vezot hattorah da página de Branca.
sephardi.org.ukA sinagoga mais antiga em uso contínuo nas Américas, com chão de areia. A congregação foi formada por judeus de Amsterdã e do Brasil holandês.
snoa.comEm Belmonte, famílias guardaram em segredo, até o século XX, o que Branca guardava: a lâmpada da sexta-feira, as orações de cor, o casamento entre si. Só no fim do século XX voltaram abertamente ao judaísmo; a sinagoga é de 1996. O museu conta essa história.
Museu Judaico de Belmonte · a comunidadeNo Porto, o capitão Barros Basto ergueu nos anos 1930 uma sinagoga para receber os cristãos-novos que voltavam; em Lisboa, a sinagoga Shaaré Tikvá é de 1904. Pelo país, a Rede de Judiarias guia pelas antigas ruas judaicas.
Comunidade do Porto · Comunidade de Lisboa · Rede de JudiariasO cozido que passa a noite no forno continua vivo nas casas sefarditas, sobretudo marroquinas, com grão-de-bico, carne e ovos que saem cor de caramelo. Claudia Roden reúne as versões em The Book of Jewish Food. E a de Branca está aqui.
O livro na AmazonEm Pernambuco, na Paraíba, no Rio Grande do Norte e no Ceará, muitas famílias guardaram costumes sem saber de onde vinham: varrer a casa para dentro, acender velas na sexta, não comer carne de porco. Hoje, descendentes de cristãos-novos, os bnei anussim, voltam a estudar e a praticar o judaísmo, muitas vezes guiados pelas genealogias de Koren de Lima.
A história de BrancaA Nação
Os que fugiram da Inquisição chamavam a si mesmos “a Nação”. Em Amsterdã, Londres, Hamburgo, Bordeaux e nas Américas, montaram congregações com um rito próprio, o espanhol e português, também chamado sefardita ocidental. Por séculos, a língua da comunidade foi o português, e a das orações de fora do hebraico, o espanhol.
Hino em espanhol cantado depois das refeições, além da bênção em hebraico: “Bendigamos al Altísimo, al Señor que nos crió…”. Deve ter nascido entre os judeus de Bordeaux, e sua melodia, das mais amadas do rito, serve também ao Cântico do Mar no Shabat. Chegou a Manaus e Belém com judeus marroquinos no século XIX.
O ayin vira “ng” (Shemang Israel), o tav é sempre “t”, e o rolo da Torá é erguido antes da leitura, ao som do Vezot hattorah.
A Esnoga de Amsterdã ainda é iluminada só por velas. Em Curaçao, no Suriname, na Jamaica e em St. Thomas, o chão das sinagogas é de areia.
A direção da comunidade é o Mahamad; a sinagoga, a esnoga. Em Amsterdã, algumas fórmulas ainda são ditas em português.
Diretório completo: S&P Central.
Amsterdã. Em 1940 viviam na Holanda cerca de 4.300 judeus portugueses. Num esforço desesperado, advogados e antropólogos pediram aos alemães que os declarassem “não judeus de raça”, por descenderem de marranos: o pedido cobria 4.304 pessoas. Hans Calmeyer, o funcionário alemão que julgava esses casos, aceitou apresentar só os 386 mais “convincentes”. Em Westerbork, os peritos nazistas os chamaram de “subumanos raciais”, e em 25 de fevereiro de 1944 o grupo foi mandado para Theresienstadt. Dos 4.300, cerca de 3.700 foram assassinados; menos de mil voltaram. A Esnoga ficou de pé, e a biblioteca Ets Haim, levada para a Alemanha, voltou depois da guerra.
Bordeaux. Em junho de 1940, o cônsul português na cidade, Aristides de Sousa Mendes, desobedeceu a Salazar e deu milhares de vistos a refugiados, muitos deles judeus. Dois anos depois, a Grande Sinagoga virou centro de detenção de onde famílias saíam para Drancy e Auschwitz.
Hamburgo e Itália. A velha comunidade portuguesa de Hamburgo, do começo do século XVII, desapareceu. Em Livorno, Veneza e Roma, os judeus do rito ocidental foram caçados a partir de 1943.
Londres e as Américas. Bevis Marks atravessou a Blitz sem dano. Nova York, Filadélfia, Montreal e o Caribe guardaram o rito enquanto a Europa o perdia.
Fontes: J. Presser, Ondergang, “De Portugese Joden”; história da comunidade, esnoga.com.
12–15 mil
é a nossa estimativa de quantas pessoas pertencem hoje a congregações que ainda rezam no rito espanhol e português, somando os números que elas publicam: Londres (c. 1.300 membros), Montreal (c. 800 famílias), Amsterdã (c. 630), Nova York e Filadélfia (algumas centenas de famílias cada), Curaçao (c. 200), Suriname (c. 130), e grupos menores na França, na Itália, em Gibraltar, no Caribe e em Israel.
Mas o rito sobreviveu melhor do que as famílias: em Londres, Montreal ou Bordeaux, a maioria dos fiéis hoje veio do Marrocos, do Iraque ou da Índia. Os descendentes da velha Nação que ainda rezam nessas sinagogas devem ser alguns milhares. Já os descendentes dos cristãos-novos que ficaram, como os de Branca, são incontáveis, e a maioria nem sabe.